Ana Rita Almeida | Oman

Se tenho saudades? Tenho e muitas.  Sem dúvida que a saudade é dolorosa principalmente no início, mas depois habituei-me porque, além de esta ter sido a minha opção, sou feliz com a vida que levo, pelo menos por enquanto.

Chamo-me Ana Rita Almeida. Há quem me conheça e há quem não faça ideia nenhuma de quem eu seja.

Escrevo para o “Ceira Move” apesar de ser da Conraria mas como eu não acredito em fronteiras, aqui vai disto!

Há 3 anos mudei-me para Oman no Médio Oriente e adoro este país como nunca pensei que fosse possível. Foi opção minha sair de Portugal mesmo tendo um emprego em Lisboa, mas quando temos um espírito de aventura e de rebeldia, a nossa casa passa a ser o mundo e ansiamos por conhecer e experienciar o máximo que conseguirmos.  No fundo nenhum de nós sabe o dia de amanha, certo?!

Eu trabalhava em Lisboa, tinha casa, carro e vida mais ou menos organizada (achava eu), mas sentia-me profundamente enjaulada num emprego que pouco me dizia e a viver um dia-a-dia que nada tinha a ver com aquilo que sou.

Quando a crise económica começou em Portugal, senti que este era o sinal de que eu precisava para começar a procurar trabalho e para, mais uma vez, sair da minha zona de conforto. E assim foi. Em 2013, foi-me feita uma proposta para vir para Oman e, em menos de 1 mês, fiz as malas com o que achei que poderia ser útil, despedi-me dos meus pais e amigos e lá vim eu. Confesso que o adeus continua a ser, sem dúvida, a pior recordação que tenho e a pior sensação que posso ter… odeio dizer adeus!

Muitos acharam que era tolice uma mulher sozinha deixar a Europa para ir viver para terras árabes, mas o desafio era demasiado grande, tanto a nível profissional como a nível pessoal, para poder desistir desta oportunidade.  Foi difícil no início e levei talvez um ano a sentir que estava adaptada, mas, aos poucos, a adaptação foi tão natural que passei a sentir-me em “casa” e isto levou a que me afastasse um pouco das raízes. Levou-me a olhar o futuro de uma forma tão diferente que passei a ser incompreendida por quem ficou para trás. Principalmente para quem vive fora da Europa, a realidade é tão diferente que não dá para explicar o que nos muda, mas muda-nos para melhor, porque a aprendizagem cultural leva-nos a uma maior tolerância e a reformular as nossas prioridades na vida. Contudo, isto não significa que me tenha esquecido do passado, significa simplesmente que o meu caminho foi por outras direcções, sem que nunca me esqueça das pessoas que tenho na “Casa de Portugal”. São essas as pessoas que, de uma forma ou outra, me fizeram o que eu sou hoje e, na minha experiência de vida, não há longe nem distância quando os elos são fortes.

A 7000 km de distância torna-se difícil de manter ligação com Ceira ou Conraria em termos de comunidade mas, apesar de estar longe, mantenho a ligação com os meus pais e com os bons amigos que duram desde o dia que nasci.

Se tenho saudades? Tenho e muitas.  Sem dúvida que a saudade é dolorosa principalmente no início, mas depois habituei-me porque, além de esta ter sido a minha opção, sou feliz com a vida que levo, pelo menos por enquanto.

Como consequências da minha opção perco casamentos, o crescimento dos bebés que felizmente ainda nascem, o envelhecer dos meus pais que são quem sofre mais com a minha ausência, a presença das minhas pessoas nos meus aniversários… perco muito em prol do que hoje ainda me faz feliz – a liberdade de ser quem sou.  A globalização torna-nos pessoas do mundo.

Adoro regressar todos os anos à Conraria e a Ceira e, se há quem tenha uma sensação nostálgica quando vê a Torre da Universidade, sou eu. Eu tenho esse sentimento e quando atravesso a Ponte da Portela, sei que estou a chegar a casa.

Hoje, olho Ceira e Conraria e vejo que, em termos de paisagem, pouco mudou, mas que existe uma maior dedicação das pessoas em prol da comunidade existente, desde os passeios que vejo a serem organizados, como ao festival de música Ceira Rock Fest. Adoro saber que há uma pequena comunidade que ainda agita as mentes e faz mexer as pessoas para uma comunidade mais unida e desenvolvida.

É nesta altura em que sinto uma antítese emocional, o adorar que a minha vida seja baseada em mudanças, mas ao mesmo tempo, saber que posso voltar a casa onde nada mudou e onde tudo continua quase igual. Adoro chegar a casa e sentir que, pelo menos por fora, nada mudou. Adoro olhar pela janela e ver que a paisagem da Quinta da Conraria continua a mesma.

Se penso em voltar? Talvez um dia, quem sabe. Por agora não está nos planos nem nos objetivos. Sinto-me triste comigo mesma quando me imagino a morar em vários cantos do mundo, mas não me imagino a regressar a Portugal para viver. Mas quem sabe?? Nunca digo nunca… a vida é bonita por ser misteriosa e, por isso, prefiro deixar o dia de amanhã só para amanha!

Obrigada Ceira Move por se lembrarem de todos os que andam espalhados por este lindo mundo fora.

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