Boiça | “Facilidade de transportes, uma missão humanitária”

Numa aldeia centenária desta Vila de Ceira habita um povo trabalhador, dedicado e acolhedor.

Em tempos, que se perdem na memória, foi nomeada de Boiça, terra de pinheiros e pedras, terra de lajes e calhaus, matéria-prima da construção base das suas habitações de origem.

Terra de gente dura mas afável.

Terra onde o rio e o pinhal se conjugam na perfeição, temperando o feitio e a personalidade das suas gentes.

A suavidade e força do rio, conjugada com a virgindade e a frescura dos pinhais, criam um quadro sociológico típico das gentes lusas que habitam no vale do Ceira, junto ao rio Mondego.

Actualmente, na Boiça habitam maioritariamente homens e mulheres de uma faixa etária acima dos setenta anos.

Homens e mulheres nascidos na década de trinta passaram pelas dificuldades da 2ª Guerra Mundial, sem nela terem combatido, mas sofrendo os seus nefastos efeitos: fome, filas de racionamento alimentar.

Viveram também a maior parte da sua vida debaixo de um regime autoritário e em condições de miséria: trabalho infantil, ausência de infância, privação de liberdade de expressão.

No entanto, tudo viveram sem perder a alegria de viver, o que é uma lição para nós.

São heróis anónimos, dignos de louvor, estátuas e nomes de rua, com a certeza que nunca as terão.

Estes homens e mulheres, neste momento, necessitam da nossa ajuda.

Para se deslocarem para Coimbra necessitam de andar a pé cerca de 1,5 km, de distância.

Só quem conhece a estrada que vai da Boiça para Ceira, poderá perceber quão difícil e atroz é o caminho, que estas pernas que já percorreram maratonas têm agora que palmilhar.

Ora nos SMTUC, existe um meio de transporte chamado “pantufas” que percorre ruelas da alta de Coimbra, beneficiando principalmente os idosos daquelas paragens nas suas deslocações dentro da cidade.

Um tipo de transporte deste estilo poderia percorrer sem dificuldade as aldeias de Boiça, Vendas e Sobral, fazendo uma carreira de manhã (partida cerca das 08H00 e chegada cerca das 13H00) e uma à tarde (partida cerca das 14H00 e chegada cerca das 18H00), colmatando assim a sensação de isolamento e dificuldade que estes homens e mulheres sentem actualmente.

Mesmo na “garganta” da Boiça, junto à antiga fonte, um carro deste estilo passa sem grandes dificuldades.

Aliá esta proposta não é nova, tendo sido levada á Assembleia de Freguesia por algumas senhoras da Boiça.

Quando ouvi os meus pais, que têm actualmente 80 anos, relatarem esta dificuldade, mais convicto fiquei da necessidade de escrever este artigo.

Uma assistência de transporte deste estilo é uma questão humanitária.

10 Comment

  1. pauloneves43@gmail.com' pauloneves says: Responder

    Quero desde já felicitar os membros do Ceira Move por esta iniciativa. Agora dar os meus parabéns ao amigo Pedro pelo artigo que escreveu, chamando há realidade uma questão que no futuro se possa agravar mais.

  2. borgesduarte@seyramedis.net' Borges Duarte says: Responder

    Parabens Pedro pelo alerta (um escuteiro está sempre), uma proposta digna de a Junta de freguesia ou a Câmara Municipal decidirem a favor dessa grande lacuna, já agora permite-me incluir o Cabouco.

  3. alicefs@sapo.pt' Alice Simões says: Responder

    Obrigada Pedro, pelas palavras sábias e cheias de verdade!

  4. luiscunhabento@gmail.com' Luís Cunha says: Responder

    Olá vizinho, para quem não me conhece sou Luís Cunha, nascido e criado neste lugar que tem todos estes atributos que o meu amigo Pedro tão sabiamente soube descrever. Não leves a mal de acrescentar terra de lavadeiras, em que a minha avó serrana levava a pé, duas vezes por dia, roupa lavada a Coimbra e na portela tinha que calçar os sapatos para não ser multada por andar sempre descalça. Enfim são memórias duma terra construída com muito trabalho duro, quer pela distância quer também pelos caminhos difíceis. Agora estão muito melhores mas continuam distantes. Sabias que já ouvi um brasileiro chamar a este lugar a suíça portuguesa? Bem hajas pelo que és, pelo tributo às tuas e minhas raízes e principalmente pela tentativa de Moveres para a Boiça um futuro melhor.

    1. pedrisi@sapo.pt' Pedro Isidoro Pereira says: Responder

      Olá querido amigo Luís Cunha

      Neste artigo não explorei todo o historial da Boiça, nem todas as suas potencialidades para não se perder o tema principal.
      Mas caro amigo tens toda a razão em afirmar que a Boiça é terra de lavadeiras.
      Na minha casa todas as mulheres eram lavadeiras. A minha mãe, as minhas tias-avós, a minha avó olinda. Há muitas histórias para guardar e contar sobre as actividades da nossa aldeia. Uma aldeia com actividades tão diversas como a agricultura, a pesca artesanal, carpintaria, sapataria, costura, etc.
      Também não referi as actividades promovidas pela Comissão da Capela da Boiça, que actualmente promove através da fé, o encontro religioso e social desta população, tirando-a de casa e estimulando o encontro semanal entre as pessoas.
      Também não referi a actividade do Centro Cultural e Recreativo, que continua a promover aos Domingos o encontro das pessoas da Freguesia á volta da mesa, servindo os lanches e “buchas” que fazem a delicia de quem lá passa.
      E o Açude da Boiça onde todos fomos criados e iniciados em tantas actividades próprias do nosso tempo? Foi durante anos a praia fluvial da freguesia, onde a juventude apanhava banhos de sol em cima do cascalho e refrescava os corpos na água do Ceira.
      Enfim muito para dizer da nossa aldeia.
      Abraço para ti Luis Cunha, gente da minha gente.

  5. luiscunhabento@gmail.com' Luís Cunha says: Responder

    Tens toda a razão Pedro, seriam precisas muitas páginas para contar a história destas gentes.
    Mas falando do pantufinhas, sabendo nós que os monopólios dos tranportes falam mais alto que as verdadeiras necessidades das pessoas, não seria um projecto muito bom para o próximo presidente da junta de ceira?
    Será que os transportes de coimbra não têm um pequeno autocarro que cedessem á junta, para poder explorar no sentido de cruzarem estes lugares duma forma mais próxima das pessoas que não se podem deslocar? Pagando esse serviço não seria uma mais valia para a própria junta? O nosso desejo é o mesmo, mais e melhor vida para a nossa gente.

  6. bisnagalx@gmail.com' Pedro Mendes says: Responder

    Essa ideia do “pantufinhas” seria muito agradavel, mas não é possivel devido às licenças atribuidas a empresas de transportes. Mesmo assim penso que a boiça terá melhor transportes do que tem por exemplo o sobral ou as vendas. Passam nas horas de ponta, as mais importantes para quem se tem que deslocar a Coimbra, varias camionetas que vêm de varios sitios, Gois, Poiares, Arganil, Miranda, Lousã…

  7. pedro.isidoro.pereira@gmail.com' Pedro Isidoro Pereira says: Responder

    Olá Pedro Mendes

    Para quem tem dificuldade em deslocar-se a pé, a penosidade de fazer quase um quilómetro ou quilómetro e meio (do centro da Boiça à Estrada da Beira ou do centro da Boiça a Ceira ou ao Sobral, onde passam as ditas carreiras e autocarros) é equivalente.
    O percurso pela rua da Boiça, passando pela rua 4 julho, abrangeria tanto a Boiça como o meio das Vendas e o Sobral e não colidiria com nenhuma outra operadora de transportes porque nenhuma faz estes percursos. Mas esta é a minha humilde opinião.

    Abraço fraterno para si Pedro Mendes

  8. Boa tarde

    Encontrei este espaço por mero acaso pois procuro informações àcerca da terra da minha avó materna.
    Chamava-se Maria das Dores,nascida em 16 de Agosto de 1894, no lugar de Boiça, Ceira, Coimbra.
    Faleceu em Fevereiro de 1977 e sei que teve duas irmãs, também naturais de Ceira, cujos nomes eram Augusta Rita e Beatriz além de uma irmão que faleceu em Lisboa ainda jovem, por motivo de doença.
    Veio para Lisboa com 16 anos onde conheceu o meu avô, António Augusto dos Santos, natural de Mafra com casou e foram pais de onze filhos.
    Dos onze existe um com 92 anos, em Lisboa, uma com 77 anos também em Lisboa e uma com 76 em Vila Nova de Oliveirinha, Tábua.
    Foi uma avó adorável com quem tive o privilégio de conviver até aos 23 anos e de quem tenho muitas saudades. Em sua honra adoraria conhecer a terra que a viu nascer e tenho esperança de concretizar esse meu sonho. Já estive em Ceira mas não tive oportunidade de visitar Boiça. Gostaria muito de saber que ainda existissem familiares, mesmo que parentes afastados.
    Obrigada pela disponibilidade em falar sobre a Boiça!!!

    Maria Isabel Tiago

    1. Olá,

      Obrigado pelo seu comentário e pedimos desculpa de só observar o comentário agora. Pode deixar algum contacto de e-mail para ceiramove@gmail.com para saber como melhor ajudar?

      Obrigado.

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