Entrevista a Arlindo Simões Santos

“Continuámos o trabalho e construímos o apeadeiro da Conraria. Teve de chamar-se Conraria, porque o nome Ceira já existia para a estação no Sobral. Outros nomes já existiam na CP e tivemos de escolher o nome Conraria.”

A história da freguesia antes do 25 de Abril mistura-se com a sua história pessoal e Arlindo Santos, de 86 anos, não esconde o entusiasmo de quem sabe falar de um tempo em que “não havia água, não havia transportes, não havia… nada.” Foi presidente da junta de freguesia antes do 25 de abril e voltou a assumir o cargo em 1985, quando tudo tinha mudado. Foi destas mudanças que falámos, numa entrevista que nos levou a um tempo em que as colónias de férias na Figueira serviam para levar os miúdos a ver o mar, a um tempo em que o importante era pôr mãos à obra para termos uma nova estação de comboio, a um tempo em que o dinheiro era pouco e as fardas da filarmónica já nem serviam aos músicos…

Foi presidente da junta de freguesia antes do 25 de abril. Fale-nos desse tempo…

O Dr. Monteiro, da farmácia, era o presidente da junta e comecei a ajudá-lo cá na freguesia. Era muito amigo dele. Não havia dinheiro para nada e ele começou a falar-me de um problema que tínhamos: “eu estou a ver se consigo que a automotora pare aqui em Ceira”. O comboio parava só no Sobral. A CP disse-nos que, se fizéssemos a plataforma do apeadeiro, o comboio parava lá. E assim aconteceu. Começámos nós a fazer paredes. Não havia dinheiro para cimento nem nada.

Eu tinha muito que fazer, era desenhador das obras públicas, fazia projetos e faltava-me o tempo. Disse para mim “tenho de arranjar tempo” e era de noite que eu trabalhava. Aproveitava todos os bocados.

Fomos andando, andando… Entretanto, acabou o mandato e o Dr. Monteiro disse-me “Porque não fica você presidente da junta? Vai-se candidatar!”.

Continuámos o trabalho e construímos o apeadeiro da Conraria. Teve de chamar-se Conraria, porque o nome Ceira já existia para a estação no Sobral. Outros nomes já existiam na CP e tivemos de escolher o nome Conraria.

Passou-lhe o testemunho, então.

Sim. Numa altura em que não havia transportes, não havia correios, não havia… bem, não havia nada. Era uma região rica, mas não tinha mais nada.

Passei a ser o presidente da Junta. Estávamos três na junta: eu, o secretário e o tesoureiro sem dinheiro. Exigi que fosse um de cada lugar.

Continuámos o trabalho e construímos o apeadeiro da Conraria. Teve de chamar-se Conraria, porque o nome Ceira já existia para a estação no Sobral. Outros nomes já existiam na CP e tivemos de escolher o nome Conraria.

 Sempre me perguntei porque se chamava Conraria, estando o apeadeiro em Ceira…

Pois, a Conraria nem pertence sequer à freguesia. Mas foi a única solução. Nós queríamos era uma solução e conseguimo-la.

Às vezes arranjávamos uns rapazes para ajudar e quando a CP viu que nós estávamos com vontade, fizeram um coberto, fizeram a plataforma, pavimentaram-na e a automotora começou a parar lá. Isto foi uma glória para nós, nessa altura.

“As pessoas participavam e trabalhavam. Eu via que havia necessidade de dar qualquer coisa aos trabalhadores, mas não havia como lhes dar, porque não havia onde se fosse buscar o dinheiro. O dinheiro não existia.”

O poder local era mais próximo das pessoas?

Sim. Hoje, é diferente. Naquela altura, as pessoas interessavam-se pela freguesia. Hoje, é sempre uma questão política e isso, para mim, não conta. O que é político não conta. Não conta porque as pessoas dedicam-se aos partidos, a isto e aquilo. E a freguesia está parada.

As pessoas, antigamente, escolhiam o presidente da junta só pela pessoa?

Era só pela pessoa. Disso não tenho dúvidas nenhumas.

As pessoas participavam e trabalhavam. Eu via que havia necessidade de dar qualquer coisa aos trabalhadores, mas não havia como lhes dar, porque não havia onde se fosse buscar o dinheiro. O dinheiro não existia.

E participava-se mais ou menos na vida da freguesia?

As pessoas participavam e trabalhavam. Eu via que havia necessidade de dar qualquer coisa aos trabalhadores, mas não havia como lhes dar, porque não havia onde se fosse buscar o dinheiro. O dinheiro não existia.

Nessa altura, o Salazar começou a montar Casas do Povo. Era onde se juntava o povo para os desviar das tabernas. Então, do que me lembrei? Juntar a Casa do Povo à junta de freguesia. E criei a Casa do Povo sem um tostão.

“As colónias são das minhas melhores recordações. As crianças nunca tinham visto o mar, nem sequer tinham dinheiro para transportes. Cheguei a dar dinheiro aos pais para irem ver os filhos e ver o mar, também.”

Lembra-se do ano em que criou a Casa do Povo?

Foi nos anos 60. Arranjei mais 4 para me ajudar… Começámos pela casa velha, fizemos algumas obras.

Antes da Casa do Povo, o Américo, médico, fazia um circuito pela casa das pessoas, uma vez por semana, por avença. Ganhava um tanto por ano. Fui eu que propus: “Temos de fazer isto. Temos de dar assistência médica à parte agrícola da população”. Ele não tinha ordenado certo e recebia, às vezes, comida, milho… Umas vezes davam fruta, outras vezes davam hortaliças. Era o que aparecia. Quando havia dinheiro, pagavam, quando não havia, não pagavam.

E então, falei com o Dr. Correia, tudo pessoas amigas, e ele disse-me: “Eu vou abandonar as avenças que tenho, vocês fazem aqui a Casa do Povo e eu venho aqui todos os dias dar consulta”.

As pessoas começaram a ir à Casa do Povo e tínhamos lá um médico e um enfermeiro. Pagavam 15 tostões por consulta e a coisa começou a funcionar. A certa altura, ele não tinha hipótese de dar assistência a todas as pessoas. Mas lá se foi indo. Chegámos a ter quatro médicos. A Casa do Povo também dava assistência quando havia necessidade de transportar doentes. Não havia ambulâncias, mas sempre havia alguém para ajudar, como eu e como outros.

As colónias são das minhas melhores recordações. As crianças nunca tinham visto o mar, nem sequer tinham dinheiro para transportes. Cheguei a dar dinheiro aos pais para irem ver os filhos e ver o mar, também.

Existiam mais atividades ligadas à Casa do Povo?

Sem um tostão, começámos a fazer Colónias Balneares, para as crianças da freguesia que nunca tinham visto o mar. Inscreviam-se muitos e havia dificuldade em escolher as pessoas que deviam ir. Então, em colaboração com os meus colegas, fizemos dois turnos, para a 3ª e 4ª classe. Ia toda a gente. Iam todos os que queriam.

A primeira vez que eu organizei, não havia nada. Fui ao quartel falar com o Comandante e ele disse-me: “Você veio mesmo na hora H porque eu recebi agora dezenas de colchões novos”.
Aluguei uma casa na Figueira e fiz a primeira Colónia. Depois, arranjei uma casa mesmo boa, em Buarcos, e os miúdos lá estavam 15 dias. Estavam sempre pessoas com eles, as catequistas, e havia duas cozinheiras que tratavam da alimentação.

E a alimentação! Nessa altura, criou-se a Cáritas, que não tinha a estrutura que tem agora. Da América, vinham sacos de 50Kg de farinha de trigo, vinha queijo, vinha tudo. E como eu tinha um amigo na Cáritas, o que eu queria, vinha para cá.

Depois, falava com o padeiro e trocava a farinha por pão para os miúdos e para os adultos. O padeiro ainda me dava dinheiro para hortaliças. Normalmente, quase nem era preciso porque as mães dos miúdos tinham o cuidado de mandar hortaliças e frutas e essas coisas todas.

No convento de Semide, emprestaram-me instrumentos e, nesse ano, a banda já tocou na Rainha Santa. Comecei, depois, a pedir dinheiro à Gulbenkian e mandaram-me sempre dinheiro ou instrumentos. Era um pedinte, pedia dinheiro para tudo, mas sempre arranjei.

Depois do 25 de Abril, esteve algum tempo afastado, mas voltou a ser presidente da Junta de Freguesia, em 1985. Passou a haver mais dinheiro. Sentiu muito a diferença na freguesia?

Eu senti, mas fomos nós que fizemos, que nos mexemos. Eu conhecia o diretor dos serviços municipalizados, que era muito meu amigo e falava com ele muita vez. Perguntei-lhe muitas vezes: “Oh Sr. Engenheiro, quando é que temos saneamento e água em Ceira?” Disse-me que ia instalar um tubo de 25cm de diâmetro, da Portela para Ceira, mas que não dava para distribuir a água, só para fazer uns chafarizes.” Fez-se um chafariz em Ceira e outro no Cabouco.

Mais tarde, fez-se o traçado das águas. De todos os lugares da freguesia, inclusive do Carvalho. Não quis começar por Ceira para não dizerem que estava a fazer as coisas só para aqui, para onde eu vivia. Comecei por S. Frutuoso, que é o lugar mais distante, e depois foi o Cabouco.

Ainda estive dois mandatos na Junta e deixei ficar tudo orientado. A Câmara começou a tratar os transportes públicos, construíram-se os Correios.

Também fiz o cemitério no Carvalho. Uma senhora que vivia sozinha tinha o terreno, morreu e deixou a terra em testamento para o cemitério. Não havia estrada daqui para o Carvalho e os caixões eram trazidos em cima de uma escada, por um carreiro pequenino que havia…

No convento de Semide, emprestaram-me instrumentos e, nesse ano, a banda já tocou na Rainha Santa. Comecei, depois, a pedir dinheiro à Gulbenkian e mandaram-me sempre dinheiro ou instrumentos. Era um pedinte, pedia dinheiro para tudo, mas sempre arranjei.

Lembra-se de alguma história engraçada desse tempo?

Lembro-me de uma história… Quando fui para a Junta, havia um senhor que ia todos os dias dar corda ao relógio na torre da Igreja. Ganhava 150 escudos por ano. No fim do primeiro mandato, paguei ao homem e o valor ficou nas contas de Janeiro, que mandei para a Câmara. Devolveram-me as contas e fiquei perdido… Chamaram-me à Câmara.

O chefe da secretaria, quando me viu a entrar, começou-se a rir: “Você vem assustado”. Eu disse-lhe que, se me tinham chamado por causa de contas públicas, é porque havia asneira.

Disse-me: “Não há asneira nenhuma. Você pôs aí 150 escudos que pagou ao homem que vai dar corda ao relógio, mas você não pode pagar ao homem. A igreja é uma coisa e nós somos outra…” Lá me disse para pôr os 150 escudos noutra rubrica e as contas foram aprovadas.

Lembro-me, também, que a Filarmónica, a certa altura, faliu. Esteve muitos anos parada… já depois do 25 de Abril. Eu não sou músico, não sei uma nota, mas fazia-me “espécie”… era pena. Os instrumentos quase não existiam, os músicos já estavam velhos, eram poucos e as fardas que eles tinham já lhes ficavam a meio do braço.

Eu propus, então, que se chamasse a Banda Filarmónica para a Casa do Povo, porque eles não tinham instalações e tinham as coisas metidas num barracão. Todos aprovaram.

O Dr. Chaves de Castro era presidente do turismo e também estava na Casa do Povo. Disse-me: “fica aprovado por unanimidade, mas a banda tem que ir tocar às festas da Rainha Santa”. Disse-lhe que isso não podia ser, como as coisas estavam, mas respondeu-me com um “Desenrasque-se!”.

No convento de Semide, emprestaram-me instrumentos e, nesse ano, a banda já tocou na Rainha Santa. Comecei, depois, a pedir dinheiro à Gulbenkian e mandaram-me sempre dinheiro ou instrumentos. Era um pedinte, pedia dinheiro para tudo, mas sempre arranjei.

Se estivesse de escolher um sítio aqui em Ceira, qual escolhia?

Há ali um planalto… O Pisco.

Agora, está um bocadinho diferente…

Tinha uma vista…

 

A história do apeadeiro da Conraria

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