Uma foto, uma história: a escola

Fica para a posteridade a imagem de uma infância sofrida, onde a única fartura que havia eram as carências. Mas fica também a certeza de que esta geração soube contornar as dificuldades e se adaptou às circunstâncias, não se entregando ao infortúnio. Esta geração era desenrascada e obrigada a ser imaginativa.

Esta terá sido, porventura, a foto cuja publicação nos deu mais prazer, desde logo pela sua raridade e depois, por tudo aquilo que transmite sobre uma geração que comeu o pão que o diabo amassou. Esta foi uma época de carências de toda a ordem, difícil para os adultos e muito mais difícil para as crianças. Esta imagem traduz isso mesmo na roupa e particularmente na falta de calçado. Mas era mesmo assim. Apenas alguns afortunados tinham direito a umas botas ou umas alpercatas. A maioria andava a “pé de pombo”, que era como definíamos o andar descalço.

Depois há histórias, as muitas histórias que a escola primária nos deixa na nossa recordação, começando por deixar claro que na época não havia nenhum prazer em ir à escola. Na altura, as reguadas, canadas e outros castigos eram um direito dos professores, aceites por todos, pais incluídos, pelo que não resultava a qualquer de nós ir fazer queixa do professor ao pai. O que tinha mais certo era levar ainda mais alguns tabefes. Quando, nos dias de hoje, chegam até nós algumas imagens daquilo a que chamam violência sobre os alunos, veem-nos à memória aquelas manhãs de inverno, de mãos geladas, e a ter que as apresentar à régua do professor, que castigava por tudo e por nada; por não fazer os trabalhos de casa; por os ter feito mas ter errado algum problema; por entornar o tinteiro; por chegar atrasado; por estar a conversar com o colega de trás. Por isto e por aquilo, havia um rol de “não razões” para castigos tão severos. E como doía, meu Deus. Não eramos nenhuns santos, embora fossemos obrigados a rezar na sala de aula. O nosso comportamento era gerido pelo medo que a figura do professor nos transmitia, pela sua austeridade, perante o qual todos nos levantávamos quanto entrava na sala de aula. Era o nosso mestre, mas também o nosso carrasco.

Nós não fazemos parte deste grupo da foto. Iríamos passar por lá meia dúzia de anos depois e a diferença na qualidade de vida não diferia muito daquela que existia no ano escolar 1955/56, a que se refere a imagem. Não somos, por isso, protagonistas de qualquer história que envolva este grupo. Mas, as histórias da vivência escolar têm sempre alguma semelhança e resultam, em grande parte, das peripécias que as nossas brincadeiras geravam: jogar ao pião, ao prego, à covinha com os botões, ao pataco, à “uma da bela mula”, a caçar “cubileiros”1 e grilos (os pokemons da época), e também à bola. Mas para haver bola, era necessário haver uma bexiga de porco e, para isso, lá andávamos nós a correr para o ‘Ti Domingues, que era o único carniceiro (era assim mesmo que era designado), para nos arranjar a dita para ser seca no fumeiro e colocada na bola que o Avelino possuía. Era sol de pouca dura: um pontapé mais forte e lá se quebrava a resistência da bexiga e lá voltávamos nós ao nosso rosário.

Já sabemos que ir à escola era do pior que nos podia acontecer. Ter que levar porrada, quando havia tanta coisa boa para fazer lá fora! E se eu e outros íamos, porque não tínhamos outro remédio, havia um, cuja identificação vou omitir, que não ia mesmo. Só ia, se fosse levado pela mãe, que o puxava pelas orelhas até à entrada da escola. Mas era sempre sol de pouca dura. Não tardava que o tempo aquecesse e convidasse a um mergulho no poço do Almegue, e o nosso amigo, que saía de casa para a escola, por ali ficava a desfrutar da liberdade que nos era negada. Era demasiado irreverente, mas aquele estatuto de poder estar em liberdade causava-nos cá uma inveja. Um dia, chegou ao professor, creio ter sido o “Bigodes” ou professor Fernando das Torres do Mondego, a informação de que o nosso condiscípulo estaria a desfrutar de algum calor precoce e se banhava no Almegue. O professor pediu então à auxiliar que fosse ao rio e o trouxesse para as aulas e, caso ele negasse, que lhe trouxesse a roupa. É óbvio que ele não regressou com ela e a auxiliar mais não fez que cumprir as ordens do professor, trazendo a roupa para a escola. É escusado dizer que o banho era tomado em nu integral e foi assim, neste estado, que o rebelde teve de regressar a casa.

Outra peripécia aconteceu também a dois colegas que um dia, no final das aulas, resolveram ir fazer um “assalto” a uma cerejeira, pertencente ao Dr. Simões Pereira, e que ficava justamente em frente à escola, tendo em conta a fachada principal. Tiveram azar, porque o ‘Ti Xico Palmeira, que era o feitor, foi dar com eles em cima da árvore. Bem se esforçou para que descessem para os acariciar, mas eles estavam relutantes e nunca lhe fizeram a vontade. Perante o impasse, o feitor decidiu levar as suas sacolas, que tinham deixado debaixo da árvore, e que foram entregues no outro dia ao professor. Moral da história: temos dúvidas que não tivessem ficado melhor com as carícias do ‘Ti Xico do que aquelas que o professor lhes deu.

Estes são penas dois apontamentos que pretendem ilustrar algumas das histórias que esta foto nos remete. Duas apenas das muitas que encerra. Fica para a posteridade a imagem de uma infância sofrida, onde a única fartura que havia eram as carências. Mas fica também a certeza de que esta geração soube contornar as dificuldades e se adaptou às circunstâncias, não se entregando ao infortúnio. Esta geração era desenrascada e obrigada a ser imaginativa. Não tinham qualquer espécie de brinquedos. Eram obrigados a inventar e fabricar aquilo com que brincavam. E foi ainda esta geração que, anos depois, veio a alimentar a guerra da ex-colónias.

Orgulhamo-nos de ter pertencido a esta geração. Orgulha-nos saber que os conhecimentos adquiridos até à 4ª Classe superam, nalguns casos, os de algumas licenciaturas. Peçam a um aluno do ensino superior que vos faça uma conta de dividir sem calculadora. Iriam ficar surpreendidos com o resultado. Perguntem-lhe pelos sistemas montanhosos de Portugal, Continental, Insular e Ultramarino; perguntem-lhe pelos rios de Portugal, onde nascem, onde desaguam e por onde passam; perguntem pelas vias férreas e seus ramais; perguntem…

 

ANO LETIVO 1955/56 De baixo para cima. 1ª fila(sentados): Zé dos Porcos (Conraria); Arlindo Carloto; Quim da Casemira; António Peixoto; Angelo Vieira; N.I.; Eduardo (Nicolau); Fernando Bairrada; Armando Bispo; Alvaro Luis; Fernando Correia Gomes; Vitor Campos; Carlos Gomes; Arnaldo Carregador. 2ª fila: Joaquim Leal; António Calado; Tonito do Posto; Tonito da Aurora; Zé Mendes; Santos Costa; Eduardo Vieira; Serafim (Sobral); Júlio Figueiredo; Zé Bichota (Sobral); N.I; Zé Luis Carrito; Eduardo Bairrada; Tónio Salvador; Zé Manel França. 3ª fila: Manuel Gaspar; Fernando Vicente Costa; Américo Santos; Zé Mendes; Carlos Capitão; Abel Guerra; Carlos Pires Pereira; Prof. Daniel Pinheiro de Almeida; João Vieira; Armindo Balhana; António Feliciano; Mário França; Carlos Sardinheiro; Carlos Teixeira; Tónio da Barroca; Manuel Oliveira; Fernando Preto
ANO LETIVO 1955/56
De baixo para cima. 1ª fila(sentados): Zé dos Porcos (Conraria); Arlindo Carloto; Quim da Casemira; António Peixoto; Angelo Vieira; N.I.; Eduardo (Nicolau); Fernando Bairrada; Armando Bispo; Alvaro Luis; Fernando Correia Gomes; Vitor Campos; Carlos Gomes; Arnaldo Carregador.
2ª fila: Joaquim Leal; António Calado; Tonito do Posto; Tonito da Aurora; Zé Mendes; Santos Costa; Eduardo Vieira; Serafim (Sobral); Júlio Figueiredo; Zé Bichota (Sobral); N.I; Zé Luis Carrito; Eduardo Bairrada; Tónio Salvador; Zé Manel França.
3ª fila: Manuel Gaspar; Fernando Vicente Costa; Américo Santos; Zé Mendes; Carlos Capitão; Abel Guerra; Carlos Pires Pereira; Prof. Daniel Pinheiro de Almeida; João Vieira; Armindo Balhana; António Feliciano; Mário França; Carlos Sardinheiro; Carlos Teixeira; Tónio da Barroca; Manuel Oliveira; Fernando Preto

 

1 Esta designação não aparece em qualquer dicionário. Mas era assim que nós designávamos uma espécie de aranha que tinha o seu habitat num buraco feito no solo e que tapava com uma tampa bem redonda e tão perfeita, que era difícil de encontrar. O entretêm era fazê-los sair do buraco e, para isso, usava-se o talo da flor do trevo e quando houvessem dois, havia luta e naturalmente um vencedor e um derrotado.

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