Uma foto, uma história: a Romaria do Senhor da Serra

Era sempre assim em cada verão. O calor empurrava-nos para o Poço do Almegue, onde, entre um mergulho e um assalto a umas uvas que estivessem por perto, sentados no cascalho da beira do rio, decidíamos o que fazer a seguir, ou amanhã, se hoje já não fosse possível. Mas a chegada do mês de Agosto, e a aproximação da data da Romaria do Senhor da Serra, agitavam o grupo. Já não havia cabeça para mais nada, senão para o viver daquela semana, e dormíamos e acordávamos a sonhar com a chegada do dia 15 de Agosto.

Uma ocasião chegou-nos a notícia de que um romeiro, que tinha saído na estação do Sobral, vinha a cumprir a sua promessa de dar 10 escudos a cada pobre. Lá fomos nós à sua procura e era mesmo verdade: nesse dia, saiu-nos o jackpot.

Naqueles dias assumíamos todos o papel de mendigos e a nossa ocupação era estender a mão à caridade dos romeiros que subiam a serra em grande número: uns a pé, outros de bicicleta e outros ainda de “camioneta de carreira”. E eram estes o nosso grande alvo. Das suas janelas choviam generosas moedas ao encontro das mãos que mantínhamos estendidas. Em maior quantidade, as de 2 tostões (20 centavos), algumas das brancas de 5 tostões (50 centavos) e, mais raramente, de 1 escudo. Uma ocasião chegou-nos a notícia de que um romeiro, que tinha saído na estação do Sobral, vinha a cumprir a sua promessa de dar 10 escudos a cada pobre. Lá fomos nós à sua procura e era mesmo verdade: nesse dia, saiu-nos o jackpot. 10 escudos, na época, era um valor que já merecia algum respeito.

A estratégia já estava delineada há muito tempo e era sempre assim. O quartel general estabelecia-se na Cascalheira, no cimo das Vendas, que corresponde hoje ao local onde o Álvaro Luis tem a sua casa. Com recurso a umas ramagens de eucalipto, criava-se uma sombra em local estratégico, de modo a ter uma visão sobre a curva do Ti Frutuoso, em Ceira e a entrada da Ponte da Longra. A passagem de uma camioneta de carreira por ali colocava-nos logo em sentido. E quando a ouvíamos a roncar à porta do Dr. Mário, era o momento de tomar posições. Colocávamo-nos, uns de um lado e outros do outro lado da estrada, antes da curva da sede dos Escutas e, logo que a camioneta passasse e tivéssemos recolhido as nossas “esmolas”, corríamos por um caminho que nos voltava a ligar à estrada do Senhor da Serra, enquanto a camioneta fazia a longa curva dos “escutas”. A nossa agilidade permitía-nos chegar primeiro e saber já de que lado dava, ou o lado que dava mais, e posicionávamo-nos da forma mais conveniente. Se não dava nada, nem de um nem do outro lado, então evitávamos a corrida.

Era um período de grande adrenalina que não se ficava apenas pela pedincha. Na altura, era no tejadilho das camionetas, numa grade criada para o efeito, que estava a bagageira. Era ali que eram transportados os farnéis que haveriam de ser comidos à sombra dos pinheiros do Senhor da Serra. Para lá chegar havia uma escada, instalada na traseira, que podia ser subida, quando não estivesse em uso. Só que, para nosso gáudio, a maioria dos motoristas não queria estar com esse trabalho e, a escada descida tornava-se um meio de subir a serra à boleia. Pendurados na escada fazíamos a nossa viagem, com o senão de termos de engolir uma quantidade indiscritível de pó durante os cinco quilómetros da viagem. Como o alcatrão para ali não era sequer um sonho, imagine-se o pó que aqueles rodados soltavam e o estado em que chegávamos ao Senhor da Serra. De volta às Vendas havia duas hipóteses: aparecer assim em casa e levar uma tareia, ou ir ao banho ao rio e apanhar também. A mãe não queria que andássemos no rio, nós bem tentávamos mentir, mas o cabelo denunciava-nos. Nada escapava ao olhar de uma mãe e a escolha não era nada fácil.

Autocarro semelhante ao que fazia a carreira do Senhor da Serra com tejadilho para a bagageira e escada nas traseiras.
Autocarro semelhante ao que fazia a carreira do Senhor da Serra, com tejadilho para a bagageira e escada nas traseiras.

Em tempos muito difíceis, os tostões que angariávamos por ali permitiam-nos alguns mimos que não teríamos, se não fosse a romaria. O melhor de todos era beber um pirolito na Cruz da Serra e comer um pacote de bolachas de baunilha numa das barracas que eram construídas para dessedentar os romeiros. O prazer que era carregar a esfera de vidro para ter acesso àquela bebida, da qual ainda hoje guardo o sabor…

Não sei o que pensavam as mães dos outros, mas a minha não queria nada que andasse a pedir e fazia tudo para que tal não acontecesse. A sua sensatez chocava com o prazer que isso me dava e com a irreverência própria daquela idade. Eu queria sair de casa mal vestido, descalço, e com aspecto andrajoso, mas ela não o permitia. A solução passou por ter uma roupa alternativa, que mantinha escondida na Cascalheira. Assim, só tinha que me trocar e descalçar quando lá chegasse. O Domingo da romaria, que era o dia mais forte, estava-me vedado. Tinha que ir à missa. Era um sacrifício do tamanho do mundo ter que ir para a igreja e cruzar-me com as camionetas carregadas de piedosos romeiros. O meu pensamento não estava nunca na igreja, mas nos tostões que iriam sair daquelas janelas.

O dia 22, o último da romaria, era o dia mais triste das nossas vidas. Tínhamos que esperar mais um ano para que tudo voltasse a acontecer. Até lá, as férias iriam ter continuidade na Poço do Almegue, com algumas visitas às vinhas das barreiras do campo, onde moravam as uvas brancas mais doces. De vez em quando, também fazia parte do programa descer o Cadavai em grande velocidade. O Ti’ António Folhas andava por ali e, sem que déssemos por ele, tínhamos que dar às de “Vila Diogo”, tocados pelas pedras e pelos torrões que nos mordiam os calcanhares. Depois era pedir a Deus que não nos tivesse conhecido, porque, se chegasse aos ouvidos do pai, nesse dia já não iria para a cama sem “ceia”.

1 Comment

  1. ecostasantos@sapo.pt' Eduardo Costa Santos says: Responder

    Revejo-me integralmente nessa época. Até porque faço parte da foto da escola das Vendas de Ceira no ano lectivo de 1955/56, ou seja da equipa de pé de pombo. Boas memórias duma infancia muito sacrificada. Estas narrativas estão muito bem feitas, foi a pura realidade. Obrigados pelas memórias.

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