Lurdes Picoto e família | França

Mudar faz parte da experiência de todos nós e implica tantas vezes procurar o que nos faz melhor, o que sonhamos e desejamos. Na segunda metade do século XX, tal tornou-se comum a muitos portugueses que, na busca de melhores condições de vida e nalguns casos da liberdade que a ditadura de então não permitia, saíram do país e emigraram. Ceira não foi excepção e todos nós conhecemos alguém na família que se tornou no exótico “emigrante”: a figura que vinha uma ou duas vezes por ano “à terra”, de vez em quando com um sotaque diferente ou até falando outra língua, mas que era e continuava a ser dos nossos. A emigração fez – e continua a fazer – parte da nossa freguesia e é, por isso, integrante da nossa memória como ceirenses.

Um dos muitos casos de gente que pegou na trouxa com o pouco que tinha em busca do muito que desejava é o de Lurdes Picoto e da sua família. Hoje já octogenária, mas com uma memória onde outros tempos ainda estão bem fresquinhos, Lurdes contou ao Ceira Move a sua experiência como emigrante, com a ajuda preciosa de alguns dos seus filhos. Depois de muitos anos em França, vivendo em Cholet, uma cidade no Noroeste do país, vive agora no Cabouco, aldeia onde nasceu, embora muita da sua família esteja ainda para lá dos Pirenéus.

Recorda a vida em Ceira com algumas dificuldades, principalmente a falta de comida e o desafio de criar os filhos numa aldeia onde o conforto não era aquilo que hoje existe: a sua casa não tinha luz eléctrica, a roupa era lavada no rio (que servia também de casa de banho ocasional, como acontecia na altura com tanta gente) e pedir comida ao pároco ceirense era comum. Na década de 60, com o marido e alguma família já por França, tomou a decisão de ir também. Na altura esta decisão era tudo menos infrequente: Lurdes e os seus filhos calculam que quase metade da população do Cabouco fez o mesmo, afirmando que este talvez fosse o lugar de Ceira onde mais se emigrou.

António, o mais velho, lembra-se de carregar o irmão mais novo, de 3 anos, às cavalitas. A certa altura, numa estrada de terra entre Vilar Formoso e Espanha, o pai sinalizou-lhe que se baixasse: vira um jipe da Guardia Civil, que também patrulhava a fronteira. Nem viu para onde saltou: se fosse um poço, tinha lá ficado!

O salto, como tantos nesse tempo, deu-se em Vilar Formoso. O que era o salto? Ora, numa altura de fronteiras controladas, era simplesmente jogar às escondidas com a Guarda Fiscal, que patrulhava a linha entre Portugal e Espanha. Aqui estava o problema, porque uma vez em França não havia dificuldade em fazer entrar as pessoas, mesmo quem não tivesse as “cartas de chamadas”, recomendações de outros emigrantes que já lá se encontravam ou então de um futuro empregador. Saíram de Coimbra até à Guarda, onde se encontravam pessoas de outras regiões do país, ansiando pelo estrangeiro. Lurdes conta que o grupo de Ceira teria umas 15 pessoas. Só Lurdes levou seis filhos, os mesmos que trazia atrás de si na vida de Ceira, muitas vezes caminhando sem sapatos à beira da estrada. Vilar Formoso esperava-os e aí, numa tentativa de acalmar os nervos, aguardava-se pelo breu da noite como protecção. No entanto, nessa noite estava um forte luar e o cuidado foi redobrado. No grupo de Ceira, ia muita gente da família: os filhos de Lurdes, um tio com a esposa e prole e também o marido de Lurdes, que tinha vindo buscá-los. António, o mais velho, lembra-se de carregar o irmão mais novo, de 3 anos, às cavalitas. A certa altura, numa estrada de terra entre Vilar Formoso e Espanha, o pai sinalizou-lhe que se baixasse: vira um jipe da Guardia Civil, que também patrulhava a fronteira. Nem viu para onde saltou: se fosse um poço, tinha lá ficado! No entanto, recorda António, deu-lhe sempre a ideia que nem de um lado nem do outro havia resistência aos emigrantes…

O marido de Lurdes, com a sua experiência de emigrante, conhecia os locais e as manhas. Levou-os para Fuentes de Oñoro, onde comeram numa pensão já conhecida. Aí dividiram-se: parte da família foi de comboio e a restante de carro, com um amigo, dono de uma Peugeot 404. Chegados a França, outras dificuldades aguardavam: sem uma casa que desse para todos, aproveitaram uma habitação velha que pertencera a um outro casal de emigrantes lusos, que entretanto zarpara rumo à Austrália. Lurdes e os filhos deram então com quatro paredes e um tecto a cair de velhos, ganhando como companhia ratos que até lhes comiam os poucos víveres que arranjavam… Uns meses depois, por fim, mudaram-se para uma habitação social que o governo francês providenciava às famílias mais carenciadas. Como Lurdes cuidava de seis filhos, teve prioridade. Ainda hoje recordam o espanto com uma casa novinha em folha, um quarto para cada um e o luxo relativo que era ter uma banheira na casa de banho!

Outro grande problema residia no idioma. Os mais novos entraram para a escola sem saber uma palavra de francês, mas, porque eram mais jovens, aprenderam rápido. Ajudou também terem primos na primeira escola que frequentaram, que traduziam as palavras em francês. Uma simpática professora levava-os até para sua casa, depois das aulas, para continuar essa aprendizagem. Os mais velhos, no entanto, viram esse processo mais complicado. Pela idade e também pela falta de tempo para se dedicar ao idioma, devido ao trabalho, aprender a falar francês foi “o cabo dos trabalhos”. Mas, com mais ou menos complicações, acabaram por lá chegar. Lurdes conta que quando se dirigiam a ela na rua em Francês, muitas vezes ela só respondia com palavrões bem portugueses! Também por esta dificuldade de adaptação, uma percentagem, embora pequena, de portugueses ficavam pouco tempo. Outros casos eram o contrário – deixando cá a família, perdiam-se por França e nunca mais voltavam, nem ligavam a quem cá tinham deixado.

Lurdes Picoto e os seus 6 filhos.
Lurdes Picoto e os seus 6 filhos.

 

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