O Pai Natal

Pai Natal-1Era noite de Natal! Os nossos cinco, seis anos faziam-nos crer que, pela chaminé da cozinha, lá no canto, quando todos dormiamos, ou não, pela ansiedade do momento, iria descer o Pai Natal e sobre o fogão, na bota aí deixada para o efeito, iriam ficar as prendas.

O dia passara rápido com os avisos da mãe: Tonito olha  que ficas com os dedos dormentes, não quebres o gelo, deixa! As noites frias gelavam a água que ficara de noite por aqui e ali e o entretém da manhã era estalar a camada superficial do gelo que se formara. O dia corria rápido e, noite feita, lá nos juntávamos, então como agora, para em família repartirmos o bacalhau e as batatas. Antes da meia noite, antes do menino Jesus nascer, tínhamos de estar na cama porque se o Pai Natal visse luz, não descia.

Com o raiar do dia lá corríamos para a chaminé e, na bota, … que alegria: Um par de meias, ou então aquela camisola com a risca que andava prometida, um caderno de desenho, mais tarde um de contas, um lápis de pau, uma borracha e mais aquela camioneta de madeira pintada para levar para o rio e carregar de areia quando a mãe fosse lavar a roupa. E assim os Natais se sucediam e o Pai Natal se mantinha no imaginário de criança, sem nunca o conseguir ver, palpar, dar um beijo…

O crescer desmistificou a “coisa” mas o Pai Natal perdurou. Líamos as suas histórias da Lapónia, no trenó puxado a renas e até lhe escrevíamos uma carta a pedir a tal prenda.

Já homenzinhos, o que restava da noite de Natal, após a consoada em família, era passado de casa em casa a provar as filhós aqui, broínhas acolá, coscoréis mais à frente, pouco usuais cá no sítio mas que as famílias de origem lá dos lados de Viseu, não dispensavam.  Lembro-me de fazer com o meu pai, ou melhor, ele fazia e eu ajudava a cravar, umas formas em ferro que, à lareira, se metiam na massa que se largava no azeite a ferver na frigideira, digo, sertã.

Com mais ou menos mutação, a tradição, não sendo o que era, mantém-se viva, ultrapassando dificuldades, crises ou privações. Já não há bota na chaminé, mas a noite continua a ser de família com as  prendas a traduzir o amor e a amizade familiar, entre amigos e com aqueles para quem a justiça e a fortuna nada quis.

Em Ceira, irradiando ali dos lados das Vendas, e calcorreando boa parte da freguesia, o Pai Natal continua bem presente em cada noite de Natal. Chova, faça frio, haja ou não estrelas no céu, nessa noite, aquela figura, de saco ao ombro e fazendo-se anunciar com o sino da esperança e do amor aos outros, esgueira-se entre as sombras vazias de gente, de casa em casa, anunciando o nascimento do Menino e fazendo felizes os meninos que, nessa noite, sim! Vêem o Pai Natal e recebem dele os mais significativos presentes: Os balões da amizade, os beijos da solidariedade e os rebuçados da fraternidade.

Ano após ano o Fernandito, Fernando da Mirita para outros ou, carinhosamente, o Troca Bornes, distribui felicidade e faz sua a casa de todos os amigos.

O Pai Natal, para a Maria e o Gonçalo, neste seu primeiro Natal, não se ficou no imaginário, dlim …dlim …dlim…aí vem ele ali ao fundo da ladeira e, num ápice, mesmo com luz, entrou-lhes pela casa dentro. Viram-o em carne e osso, puxaram-lhe as barbas brancas, o vermelho do fato, e ele falou-lhes e deu-lhes, tiradas do saco, as melhores prendas da noite. Obrigado Pai Natal e aparece sempre, mesmo que não seja Natal.

Não fora o contar da realidade e este seria, em Dia de Reis, um lindo conto de Natal, inteirinho para o Fernando. A ele dedico estas linhas e nelas o reconhecimento e a homenagem pelo seu gesto continuado de viver e partilhar assim o Natal.

Obrigado Fernando e muitos Natais de Pai Natal.

1 Comment

  1. pedro.simoes@hotmail.com' Pedro Simões says: Responder

    Foi o “meu Pai Natal” e este último Natal foi o Pai Natal do meu filho. Já vai na segunda geração.

    Texto de homenagem mais do que merecido!!!

    Excelente texto!!!!

Deixe uma resposta