Soraia Fernandes | Suíça

No meio destes vaivéns todos, o bom é perceber que Ceira será sempre o meu lugar, o meu ponto fixo, o sítio onde se cruzam estas linhas todas em torno do globo, ou não fosse aí que eu tivesse aquilo que mais me prende os pés à terra e ao mesmo tempo me permite caminhar: a família e os amigos.

Eu sou a Soraia, a neta mais velha da ‘Laurinda brasileira’, do cimo das Vendas de Ceira. O meu contacto com Ceira, com as pessoas e os equipamentos e atividades daí, começou quando entrei para o Jardim de Infância, e continuou depois no ensino primário, na Escola das Vendas de Ceira e no 2º e 3º ciclos do ensino básico na Escola de Ceira, enquanto ocupava as tardes de sábado na sede dos Escuteiros (atividade que só interrompi – se é que alguma vez interrompi – quando deixei Portugal de uma maneira mais definitiva) e algumas horas por semana nos ‘tatami’ da Casa do Povo, numa passagem de meia dúzia de anos pelo judo.

Iniciados os estudos em arquitetura, na Universidade de Coimbra, as viagens começaram a multiplicar-se, o que, somado ao gosto por conhecer lugares novos e ter experiências fora do comum – transmitido pelos meus pais nas férias ao estrangeiro que fazíamos todos os verões -, me levou a estudar um ano em Barcelona (Espanha) e, uns tempos depois, ainda antes de terminar os estudos, ter uma experiência que misturava trabalho voluntário com o exercício da arquitetura num bairro suburbano, em Maputo (Moçambique).

Tendo como dado adquirido que a situação no nosso tão querido país não é favorável a quase nenhum arquiteto recém formado que queira ser tratado – e que queira tratar a própria profissão – com dignidade, decidi quase automaticamente que o meu primeiro destino de trabalho seria para lá das nossas fronteiras. E portanto, coloquei vinte portfólios na mochila e marquei uma viagem para a Suíça, onde os entreguei, porta a porta, nalguns escritórios. Et voilà, por cá continuo há mais de dois anos.

Filha de mãe cuja infância foi passada em Angola e de pai que viveu até ao final da sua adolescência em solo brasileiro, acredito que me está nos genes isto de ir e voltar, sair e tornar a entrar (é talvez confirmação disso o facto da minha irmã residir no Camboja, e já ter habitado no Brasil).

 

Honestamente, com tantos quilómetros quadrados de Terra por explorar, tenho para mim que o sítio onde estou hoje não há-de ser o último antes de regressar para sempre – se é que algum dia será para sempre – a Portugal. No meio destes vaivéns todos, o bom é perceber que Ceira será sempre o meu lugar, o meu ponto fixo, o sítio onde se cruzam estas linhas todas em torno do globo, ou não fosse aí que eu tivesse aquilo que mais me prende os pés à terra e ao mesmo tempo me incentiva a caminhar: a família e os amigos.

Para além das ligações pessoais que vou tentando manter nas muitas vezes que volto a casa – seja lá com a desculpa de que vai haver um casamento, o Ceira Rock Fest, uma atividade qualquer dos Escuteiros ou o meu aniversário, ou com desculpa nenhuma –, faço um (saboroso) esforço por me envolver em tudo quanto me seja possível à distância, em projetos que vão sendo organizados, sobretudo, pelo agrupamento de Escuteiros 309-Ceira. E assim é, para mim, me ir fazendo sentir próxima de Ceira.

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