Uma foto, uma história: O Lagar

Não voltei e dificilmente voltarei a saborear aquela broa. Não era a coisa melhor do mundo mas, para quem estava tão habituado a comer broa seca, aquela era um manjar.

Há meio século atrás, por esta altura, o lagar do Dr. Mário fervilhava de actividade. Era um vai e vem constante de gente que deixava a azeitona e levava logo, em troca, o azeite. Era o Ti Henrique que chegava com o carro de bois cheio de sacos que recolhia porta a porta e, havia também os produtores mais abastados que tinham produção suficiente para um moinho ou mais. Essa fica armazenada e conservada com sal.

Para nós, aquele período era também uma época de grande actividade. As nossas brincadeiras concentravam-se no lagar e no processo do fabrico do azeite. Mas não eram apenas isso. Fazia parte do nosso dia-a- dia vir ao lagar com uma vasilha e pedir as borras, que o Ti Alfredo normalmente dava. Também tinha os seus dias maus e nessa altura éramos corridos dali de mãos a abanar. As borras eram colocadas pela minha mãe em repouso o que lhe permitia recolher uma quantidade considerável do azeite resultante do assentamento das borras, o que na época não deixava de ser uma ajuda generosa à economia doméstica. Das borras fazia uma broa que ficava escura e com o gosto acentuado ao azeite. Não voltei e dificilmente voltarei a saborear aquela broa. Não era a coisa melhor do mundo mas, para quem estava tão habituado a comer broa seca, aquela era um manjar.

Acompanhávamos todo o processo do fabrico do azeite quando tal nos era permitido: desde o esmagamento da azeitona pelas enormes mós de granito; o colocar a massa dentro das seiras; o empurrar a vagoneta já devidamente carregada para a prensa onde iria ser espremida; e finalmente o processo de retirar o engaço, já espremido de dentro das seiras. O azeite que saía da prensa era conduzido para as talhas e aí era tratado pelo mestre do lagar, com adição de água quente. Mais tarde o azeite haveria de ficar separado da água e era altura de abrir o “ladrão” para expulsar as borras e, dizem as más-línguas, algum azeite que ficaria para o dono do lagar.

A foto de hoje, não se fica apenas por uma história: são muitas as que tiveram lugar naquele espaço. Recordo uma que se passou comigo: um dia vinha a vagoneta, carregada com as seiras empilhadas, a fazer o trajecto do moinho para a prensa. Eu estava do lado das talhas e recuei para dar não impedir a sua passagem. Só que bati com os calcanhares no rebordo da caleira onde corria o azeite que vinha da prensa e entrei direitinho e de cabeça dentro de uma das talhas. Ocorreu de imediato o Ti Joaquim da Quelha que me puxou pelos pés e depois de me dar um par de açoites me mandou para casa, onde algo mais me aguardava. Foi uma sorte ter entrado numa talha que estava vazia. Se tivesse sido ao lado, certamente que não morreria mas apanhava uma barrigada de azeite. Isto foi assunto para me gozar durante imenso tempo.

Outra parte que era por nós muito apreciada, respeita aos petiscos que se faziam na fornalha que servia para o aquecimento da água e que estava em funcionamento permanente. O mais requisitado era o bacalhau assado com batatas a murro que, depois de pronto, era colocado num pequeno alguidar de alumínio e regado abundantemente com azeite vindo directamente da talha. Um luxo aquele gosto do azeite acabadinho de fazer onde as batatas e o bacalhau nadavam autenticamente. O verdadeiro bacalhau à lagareiro. A parte difícil nesta ementa era sacar uma posta de bacalhau lá de casa. Quando o conseguia não me livrava do castigo da minha mãe que, quase sempre dava pela sua falta. Estes bens estavam bem inventariados e não era fácil surripiá-los. E lá vinha a sobremesa. Enquanto houvesse lagar, era uma por dia porque eu não conseguia chegar a casa sem que as calças fossem cheias de gordura, apesar dos avisos e das tareias diárias.

Na altura, passava por ali o Ti Anastácio de Almalaguês, com uma pequena camioneta a vender peixe que, na época, se resumia à sardinha e ao carapau. Também ele foi um fornecedor de algumas sardinhas que acabaram assadas e temperadas com azeite e cebola. O trabalho era distrair a mulher que ia para cima da caixa da camioneta aviar as freguesas. E enquanto estava distraída a fazer contas e trocos, lá voavam umas sardinhas que haveriam de fazer o nosso encanto.

No exterior do lagar também aconteciam peripécias com alguma graça. Como apoio ao pessoal do lagar e a outros apertados pela necessidade, havia uma retrete, no sítio onde agora existe a casa do Abel Amaral. Era uma divisão comprida, sem porta, e composta apenas por um tábua a todo o seu comprimento, onde cada um se agachava para fazer as suas necessidades. Era aqui, no tempo das uvas, que nós comíamos os cachos daquelas que julgávamos terem “cagajá”. Na verdade tal produto jamais existiu. Julgo que era pó talco, que os donos das vinhas colocavam nas uvas, mas que nos assustava e que evitávamos com medo de alguma diarreia súbita. Mas nós encontrámos o antídoto para o “cagajá”: baixávamos as calças e na posição de defecar comíamos as uvas. Acabado o processo se não acontecesse nada era porque não havia “cagajá” nenhum. Santa inocência. Isto é que era levar mesmo à letra a palavra: ou era já ou então era nunca.

Esta retrete servia também, nas nossas brincadeiras, como o local da “ferra”, quando jogávamos às escondidas. Quando um de nós era encontrado, teria de correr para ali, e tocar na parede (ferra), antes de ser apanhado pelo perseguidor. O processo desenvolvia-se em grande correria, como não podia deixar de ser e, para se chegar é ferra, teria que se saltar da soleira da porta para cima da tábua das necessidades. Uma das vezes, o Nitinho calculou mal o salto, e aterrou com as mãos na trampa acumulada ao longo dos tempos. Ficou literalmente todo cagado e exalava um cheiro nauseabundo. Foi a correr para casa para que a mãe lhe acudisse e, segundo consta, a Ti São Leal passou a tarde toda a aquecer água e a lavá-lo mas não havia nada que soltasse o fedor que tinha entranhado em si.

Foram muitas as aventuras vividas naquele espaço, que agora é tão só uma memória. Apenas as mós fazem recordar que ali existiu um lagar. No espaço circundante já não existe o palheiro, nem o tronco de ferrar os bois nem a tão famosa retrete comunitária, palcos de muitas das nossa aventuras.

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