Uma foto, uma história: o orfeão

Cada uma das fotos que compõem os nossos álbuns de recordações têm consigo uma história, um fundamento, uma razão para aquele momento ter sido eternizado. Umas fazem parte da história de uma pessoa. Outras, porém, fazem parte da história de uma cultura, de uma comunidade, de uma organização, de um país, etc.

No caso em apreço, esta foto faz parte da história cultural de Ceira. Retrata uma época (final da década de 60) e o Orfeão e Variedades de Ceira que sob a regência do, também seu mentor, Sr. Wenceslau Madeira, marcou a juventude que por lá passou.

orfeao e variedades
“Orfeão e Variedades de Ceira” num espectáculo na Casa do Povo de Ceira no final da década de 60. (Foto: Vítor Ramos)

Tal como o nome deixa entender, o espectáculo que o Orfeão e Variedades de Ceira proporcionava era muito diversificado. Começava com o grupo coral e depois passavam pelo palco o folclore, a declamação, o teatro e a música. Eram cerca de duas horas de um espectáculo muito bem-disposto.

Este grupo era composto essencialmente por jovens mas era bastante ecléctico quanto à idade dos seus elementos. Podemos dizer que havia ali gente de todas as idades e, assim sendo, é natural que cada um dos que por lá passou tenha uma história para contar, tenha ela a ver com a envolvência natural de jovens cheios da adrenalina da adolescência, quer com ocorrências inesperadas durante as representações.

É óbvio que a noitada teve as suas consequências no espectáculo e, recordo a maneira trapalhona como a peça de teatro decorreu, com quedas de cenário e cadeiras partidas, porque uns tinham perdido a noite e outros tinham-se metido nos copos. A mistura não podia ter sido mais explosiva.

Um certo domingo o grupo deveria ir dar um espectáculo a Ermesinde, arredores do Porto. No sábado anterior, havia baile no Clube e essa parte ninguém abdicava. Pior, porém, era deitar tarde para logo levantar, uma vez que a saída estava marcada para as primeiras horas da manhã. Por isso, alguns de nós, resolvemos que o melhor era não ir à cama e passámos o resto da noite andando pelos sítios míticos de Ceira da juventude da época – Apeadeiro, Miradouro, Ponte dos Pelomes e Placas do Sobral Cid -, sob o toque do acordeão do Alberto Cruz, do Pinhal de Marrocos.

É óbvio que a noitada teve as suas consequências no espectáculo e, recordo a maneira trapalhona como a peça de teatro decorreu, com quedas de cenário e cadeiras partidas, porque uns tinham perdido a noite e outros tinham-se metido nos copos. A mistura não podia ter sido mais explosiva. O autor desta linhas dormia profundamente no autocarro quando alguém em sobressalto o acordou: era chegada a hora de entrar em cena e ninguém sabia de mim.

Foi a absoluta loucura com as freiras em grandes dificuldades para conter as alunas que tinham no palco o seu ídolo. Creio que esse dia terá sido um dos mais difíceis para as responsáveis daquela casa.

Dessa viagem recordamos ainda um espectáculo que demos num colégio interno em Vila Nova de Gaia, frequentado apenas por meninas. Do espectáculo fazia parte o “Tombe la Neige” do Ádamo, interpretado pelo Manuel Serrador. Foi a absoluta loucura com as freiras em grandes dificuldades para conter as alunas que tinham no palco o seu ídolo. Creio que esse dia terá sido um dos mais difíceis para as responsáveis daquela casa.

Esta é uma pequena história das muitas que haverá para contar. Entre elas, não faltam as que dizem respeito aos amores e desamores, aos ciúmes, à disputa cerrada por uma amada, à raiva de se sentir despeitado. Se alguém tem outras que as partilhe connosco.

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